Comunicado de Imprensa – Liga para a Proteção da Natureza

COMUNICADO  DE IMPRENSA

Perseguição  ilegal ao lobo-ibérico

Perante a situação de  ameaça da espécie, organizações exigem mais protecção, mais fiscalização e  punições exemplares

 

O recente caso do  abate da loba “Bragadinha” dentro do Parque Nacional da Peneda-Gerês reflecte a  impunidade com que se está a matar ilegalmente o lobo-ibérico em Portugal. As  organizações subscritoras juntam-se num apelo público à acção contundente em  relação aos crimes contra esta espécie ameaçada e protegida na legislação  nacional e internacional.

 

A fêmea adulta “Bragadinha” foi encontrada morta a 30 de Outubro de 2013 e os resultados da sua  necrópsia foram claros: abatida a tiro de caçadeira e simultaneamente atacada  por uma matilha de cães. Este episódio, ocorrido dentro da Zona de Caça  Associativa da Gavieira, Arcos de Valdevez, no Parque Nacional da Peneda-Gerês,  é o quinto abate ilegal de lobo-ibérico de entre os 15 lobos seguidos por  telemetria no Alto Minho. Esta fêmea era uma jovem reprodutora da alcateia  existente na área, tendo tido a sua primeira ninhada em Maio deste  ano.

 

O Sistema de  Monitorização dos Lobos Mortos, implementado pelo Instituto de Conservação da  Natureza e Florestas (ICNF), indica que para os 80 registos de mortes de lobos  identificados entre 1999 e 2011, 71% tiveram como causa a acção humana, muitas  das vezes em circunstâncias de perseguição ilegal, como por exemplo o tiro, laço  e veneno. Dados do CIBIO, obtidos por telemetria no Noroeste de Portugal,  revelam que anualmente 45% dos lobos da zona são mortos por acção humana e de  forma ilegal. Esta mortandade é insustentável e levará, se não for travada, ao  rápido desaparecimento dos 300 exemplares que ainda sobrevivem em  Portugal.

 

Na mesma zona de  caça onde foi abatida a loba “Bragadinha”, no ano passado deu-se a morte a tiro  de um lobo adulto durante uma batida ao javali. O indivíduo responsável pelo  crime foi apenas punido com uma multa de 300€, um valor que se considera  irrisório e sem qualquer efeito dissuasor.

 

O lobo, pelo seu  estatuto de protecção, não é espécie cinegética em Portugal e estes abates  ilegais com arma de fogo, que nada têm a ver com a caça e com a exploração  sustentada dos recursos cinegéticos, não podem continuar a ocorrer. Por esta  razão urge sensibilizar e dialogar com as Organizações do Sector da Caça,  envolvendo todas as partes no esforço de conservação do lobo, erradicando tais  actos criminosos e encontrando formas de mitigação das motivações que estão na  sua base.

 

As organizações  subscritoras deste comunicado exigem às autoridades competentes, nomeadamente ao  ICNF, ao SEPNA/GNR e em especial ao Ministério Público, uma acção urgente e  contundente no que diz respeito a estes casos:

 

– Os ataques dos  lobos a animais domésticos, que constituem uma das principais motivações para a  perseguição ilegal a este carnívoro, deverão ser minimizados através da eficaz  vigilância do gado e indemnizados atempadamente ao abrigo da Lei de Protecção do  Lobo-Ibérico;

 

– Tem de haver um  reforço dos meios de fiscalização (existem no total apenas 15 Vigilantes da  Natureza no Parque Nacional da Peneda-Gerês, menos de metade do que seria  necessário, e sem as armas necessárias para a  fiscalização);

 

– Os  processos-crime têm de ser julgados exemplarmente – a aplicação de sentenças  ligeiras nestes casos é um autêntico incentivo à prossecução da ilegalidade e do  crime impune, consumando-se um extermínio que aproxima cada vez mais o  lobo-ibérico da extinção.

 

As organizações  subscritoras deste apelo compreendem e reconhecem o complexo conflito entre o  Homem e a Natureza, em particular o lobo, mas insistem na utilização plena das  ferramentas desenvolvidas para mitigar as consequências desta realidade. O  reforço destes instrumentos é crucial para a conservação a longo prazo desta e  de outras espécies protegidas.

 

Às autoridades  públicas competentes cabe promover todas as iniciativas necessárias para  inverter a tendência perversa, que conduz à destruição do nosso património  natural e cultural. O lobo-ibérico é o expoente máximo da biodiversidade da  região, sendo a Peneda-Gerês o único parque nacional do país, razão pela qual é  absolutamente inaceitável que se possam reproduzir em anos sucessivos situações  de ilegalidade impune como esta.

Lisboa,  8 de Novembro de 2013

 

 

As  organizações subscritoras:

ALDEIA – Acção Liberdade, Desenvolvimento, Educação, Investigação,  Ambiente

ANPC – Associação Nacional de Proprietários Rurais, Gestão Cinegética e  Biodiversidade

APGVN – Associação Portuguesa de Guardas e Vigilantes da  Natureza

ASCEL – Asociación para la Conservación y Estudio del Lobo  Iberico

Associação  Transumância e Natureza

CARNIVORA – Núcleo de Estudos de Carnívoros e seus Ecossistemas

FAPAS – Fundo para a Protecção dos Animais Selvagens

Grupo  Lobo – Associação para a Conservação do Lobo e do seu  Ecossistema

LPN – Liga para a Protecção da Natureza

Quercus – Associação Nacional de Conservação da Natureza

LPN – Liga para a Protecção da Natureza | http://www.lpn.pt | Telf: 217 780 097 | 217 740 155 | 217 740 176 Estrada do Calhariz de Benfica, n.º 187 , 1500-124 Lisboa;

 

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